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O Instituto Vladimir Herzog enviou ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, uma carta sobre o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. Encaminhado em 19 de setembro, o documento pede que os países-membros da ONU reconheçam o resultado oficialmente proclamado pela Justiça Eleitoral brasileira, independentemente de quem vencer a disputa. A entidade cita medidas adotadas pelo governo de Donald Trump em relação ao Brasil e afirma que a pressão norte-americana pode atingir o processo eleitoral e, posteriormente, gerar questionamentos sobre o resultado das urnas. A carta também menciona um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), segundo o qual a possibilidade de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições chegou a um “nível de criticidade”.
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Segundo o Instituto Vladimir Herzog, o risco não estaria relacionado a uma manipulação direta das urnas ou à alteração do resultado eleitoral, mas a pressões políticas, econômicas e diplomáticas capazes de afetar o ambiente institucional e o debate público durante as eleições de 2026. A carta afirma que um eventual não reconhecimento do resultado por governos estrangeiros poderia alimentar redes de desinformação e fortalecer movimentos internos de contestação. O instituto também defende a preservação da autonomia das missões internacionais de observação eleitoral. O documento cita sete organizações que acompanharão o pleito brasileiro: Organização dos Estados Americanos (OEA), União Europeia, Parlamento do Mercosul, Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral dos Países de Língua Portuguesa, União Interamericana de Organismos Eleitorais, Liga dos Estados Árabes e Carter Center.
A carta enviada à ONU cita como um dos episódios de pressão norte-americana a lista de 21 exigências apresentada pelos Estados Unidos ao Brasil durante as negociações relacionadas ao tarifaço. Entre os pontos estava a participação de “dissidentes políticos” nas eleições de 2026, exigência que não avançou nas negociações diplomáticas. O documento também menciona as tarifas impostas a produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país. Outro ponto citado é a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, medida que, na avaliação apresentada pelo instituto, poderia ser usada como justificativa para uma ação norte-americana em território brasileiro. A carta ainda lembra a tentativa de envio ao Brasil de dois assessores do governo Trump que, segundo o documento, pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro. Os vistos foram negados pelo governo brasileiro, enquanto os Estados Unidos negam qualquer tentativa de interferência e afirmam que a visita teria caráter regular.
O Instituto Vladimir Herzog relaciona a preocupação com as eleições brasileiras ao relatório reservado elaborado pela Abin e encaminhado, no fim de agosto, à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. Intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, o documento aponta uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”, ainda dentro de um padrão histórico de influência norte-americana na região. A Abin analisou documentos estratégicos divulgados pelo governo dos Estados Unidos entre novembro de 2025 e maio de 2026 e apontou como objetivos a redução da influência de potências consideradas rivais dos EUA na América Latina e a restrição do acesso dessas potências a “ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas” da região. O relatório situa essas ações dentro da estratégia do segundo governo Trump para reafirmar a influência dos Estados Unidos na América Latina.
A preocupação com uma possível interferência também aparece, segundo a carta, dentro dos próprios Estados Unidos. O Instituto Vladimir Herzog cita uma manifestação dos parlamentares democratas Linda Sánchez e Adriano Espaillat, acompanhados de outros 48 congressistas, que enviaram em dezembro do ano passado uma carta a Trump condenando ataques à democracia brasileira e a ingerência na política nacional. No documento enviado a Guterres, o instituto afirma que instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos poderiam ser utilizados para influenciar o ambiente eleitoral em favor de atores alinhados à administração norte-americana. “Em nossa avaliação, existe um risco que precisa ser considerado seriamente: que essas ferramentas sejam utilizadas para influenciar o ambiente eleitoral brasileiro em benefício de atores politicamente alinhados à administração estadunidense e que, caso o resultado das urnas seja contrário a essa expectativa, a estratégia se desloque para uma segunda etapa — a alegação de fraude, a deslegitimação das instituições e o eventual não reconhecimento do resultado”, diz o texto assinado por Rogério Sottili, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog.







