Belo Horizonte, 4 de novembro de 2026

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Consumo nos supermercados cresce 6,5% após proibição das bets no Brasil

Vendas de arroz, óleo, macarrão e café avançaram após a medida, mas casas de apostas contestam a relação e questionam os dados da pesquisa
Foto: Valter Campanato

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A proibição das apostas virtuais no Brasil foi seguida por um aumento nas compras de alimentos essenciais em supermercados, atacarejos e mercearias de diferentes regiões do país. Levantamentos da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontam que as vendas cresceram após a publicação da Medida Provisória 1.394/2026, em 25 de setembro. Entre os produtos que registraram maior procura estão arroz, óleo, macarrão e café. Na semana de 5 a 11 de outubro, o varejo alimentar teve alta de 6,5% em todo o Brasil, na comparação com o mesmo período de 2025. O maior crescimento foi registrado na Região Sul e no grupo formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro, ambos com avanço de 10,6%.

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O levantamento também identificou aumento nas compras em outras regiões. Na primeira semana analisada, o Nordeste registrou crescimento de 6,5%, enquanto o interior de São Paulo teve alta de 5,6%. Na sequência apareceram Grande Rio, com 4%, Centro-Oeste, com 3,6%, e Grande São Paulo, com 1,2%. O movimento positivo continuou entre os dias 12 e 18 de outubro, quando o crescimento nacional chegou a 6,3%. Novamente, o Sul liderou os resultados, com alta de 9%, seguido pelo grupo de Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro, com 7,1%, e pela Grande Rio de Janeiro, com 6%. Já a Grande São Paulo apresentou uma aceleração expressiva, passando de 1,2% para 5,5% de crescimento. O interior paulista manteve o avanço de 5,6%, enquanto o Nordeste registrou 4,5% e o Centro-Oeste, 3,5%.

O aumento nas vendas de produtos essenciais coincide com uma redução nas movimentações financeiras destinadas às apostas virtuais. Dados do Banco Central do Brasil mostram que o número de transações por Pix caiu 10% imediatamente após a proibição das bets. Posteriormente, a queda se estabilizou em 7%. A mudança nos pagamentos é apontada como um possível fator para explicar o aumento do dinheiro disponível no orçamento das famílias para outras despesas, especialmente a compra de alimentos da cesta básica. A relação entre os dois movimentos, no entanto, é questionada por representantes do setor de apostas, que contestam a interpretação de que a restrição às plataformas tenha provocado o crescimento das vendas nos supermercados.

Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do escritório Bessa, Cardia e Freire, afirma que os números apresentados pela Abras mostram apenas o aumento nas vendas, mas não comprovam que os recursos antes destinados às apostas foram transferidos para o consumo de alimentos. “[A Abras] demonstrou apenas que o supermercado vendeu mais. Transformar uma coincidência de duas semanas em prova de causalidade é estatística de ocasião, não análise econômica”, disse. O consultor também argumenta que o estudo não considera outros fatores que movimentaram a economia durante o período analisado, como o desempenho positivo do mercado de trabalho, as restituições do Imposto de Renda e o reajuste para o Bolsa Família. “Atribuir o crescimento do varejo exclusivamente à proibição das bets, sem controlar o efeito desses pagamentos, é metodologicamente insustentável”, afirmou. Outro ponto levantado por Freire é a devolução de R$ 1,3 bilhão que estava em contas de apostadores. Segundo ele, a determinação do governo para que esses valores retornassem aos consumidores também pode ter influenciado o consumo. “Como a Abras consegue distinguir o efeito desse R$ 1,3 bilhão devolvido dos pagamentos públicos e do crescimento real da renda, do suposto efeito da proibição? Sem essa decomposição, a conclusão não passa de uma hipótese apresentada como fato”, questionou.

A contestação também foi apresentada pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que afirmou ver com preocupação os dados divulgados pela Abras. Para a entidade, os levantamentos não demonstram que a proibição das apostas tenha provocado o aumento das compras de alimentos. O instituto defende que, para estabelecer essa relação, seria necessário avaliar quanto o consumo teria crescido independentemente da medida, levando em conta fatores como renda, emprego, preços e recursos disponíveis para as famílias. O IBJR também argumenta que os próprios levantamentos da associação de supermercados mostram que o varejo alimentar já apresentava crescimento expressivo antes da proibição das apostas.