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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é apontado em um relatório da Polícia Federal (PF) como suposto sócio oculto de uma rede internacional de prostituição que recrutava mulheres brasileiras e estrangeiras para festas privadas com empresários, políticos e outras autoridades. O esquema teria movimentado pelo menos R$ 4,3 milhões e envolvido intermediários, organizadores de eventos e uma casa noturna em São Paulo. Segundo mensagens extraídas do celular do banqueiro e divulgadas pelo portal UOL nesta terça-feira (13/10), Vorcaro participava da escolha das mulheres, negociava pagamentos e organizava encontros no Brasil e no exterior. Ele demonstrava preferência por estrangeiras refugiadas, especialmente as mais jovens, com menos de 20 anos, às quais se referia como “creche”. Entre as nacionalidades mencionadas nas conversas estão russas, ucranianas, venezuelanas, argentinas e polonesas. Os diálogos também indicam que o grupo pretendia criar ou utilizar uma agência de modelos para centralizar as contratações.
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As mensagens apontam Leonardo Serrano, dono da empresa SL Consulting, sediada na Flórida, nos Estados Unidos, e Diogo Batista, promoter de eventos em São Paulo, como os principais interlocutores de Vorcaro no suposto esquema, que estaria em funcionamento pelo menos desde 2023. Serrano seria responsável pela logística internacional, incluindo passagens, hospedagens, repasses financeiros e contatos com promotores locais. Já Diogo organizava as atividades e mantinha contato com as mulheres. De acordo com as conversas, ele recebia R$ 120 mil por mês de Vorcaro. Em uma festa de Halloween realizada em outubro de 2023, na boate Madame Satã, em São Paulo, Serrano mencionou 74 mulheres, enquanto Diogo teria levado outras 40, hospedadas em 21 quartos do hotel Rosewood. Outra mensagem elevou o total citado para mais de 120 mulheres. Em junho de 2024, durante a preparação de uma festa na França, Serrano propôs disponibilizar 3 mil euros para compras a cada uma de oito mulheres. Vorcaro sugeriu aumentar o valor para 4 mil euros e fez uma referência depreciativa às participantes. Em um evento realizado em Londres, em abril de 2024, que contou com a presença de autoridades de Brasília, o banqueiro pediu que mulheres fossem levadas ao quarto dele no hotel. No dia seguinte, orientou que outras fossem encaminhadas caso fossem consideradas adequadas. As conversas mencionavam 99 mulheres levadas para trabalhar no evento.
O conteúdo das mensagens também revela o tratamento dado às mulheres pelos envolvidos. Diogo e Vorcaro utilizavam termos como “escravas” e “kengas”, enquanto as mais jovens eram chamadas de “creche”. Entre as mensagens atribuídas a Diogo estão: “Escravinha doutrinada”, “Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí”, “Escravas. Se quiser levo 2 do Rio” e “Tinha que ter levado umas escravas”. Em 2024, Vorcaro escreveu a Diogo que o grupo havia consumido sua semana e fez uma referência sexual ao número de mulheres envolvidas: “Nossa creche me consumiu semana toda kkk. Queria ter duas p*****s”. A linguagem usada nos diálogos entre Vorcaro e Diogo Batista expõe a desumanização com que as mulheres eram tratadas. As conversas sugerem uma divisão de tarefas na qual Diogo organizava os encontros e fazia os contatos, enquanto Vorcaro decidia quem seria selecionada, quem permaneceria no grupo e quanto seria pago. Em uma das mensagens, Diogo descreveu a hierarquia entre os dois: “Vc é o chefe e eu seu Cavaleiro PitBull!”. Em outra ocasião, reforçou: “Chefe manda e a gente executa”. A PF abriu um inquérito em maio para investigar a participação de garotas de programa estrangeiras e possíveis irregularidades na contratação dos serviços. A prostituição não é crime no Brasil, mas o favorecimento da prostituição por terceiros, a exploração sexual e a manutenção de estabelecimentos destinados a essa finalidade podem configurar crimes. Uma eventual ocorrência de tráfico internacional de pessoas também depende da apuração dos fatos e do cumprimento dos requisitos previstos em lei.
Uma das situações detalhadas nas mensagens envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos, que chegou ao grupo em outubro de 2023, durante a mobilização de estrangeiras para a festa de Halloween. Em 7 de novembro daquele ano, Vorcaro informou que não pagaria mais hospedagens ou passagens para mulheres que decidissem permanecer no Brasil. Diogo contou que havia três refugiadas ucranianas no grupo, e o banqueiro respondeu que queria que pelo menos uma ficasse para ele: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. A jovem permaneceu no país, e as conversas posteriores passaram a tratar de sua situação. Diogo enviou os dados do passaporte dela para organizar um voo com o grupo ao Rio de Janeiro. No fim de novembro, explicou a Vorcaro que ela “não pode voltar pra Ucrânia pq os pais dela acham melhor não”. Na mesma conversa, sugeriu uma alternativa para manter as mulheres vinculadas ao grupo: “Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos”. Em 14 de dezembro, Vorcaro perguntou quantas estrangeiras ainda estavam com eles. Diogo respondeu: “1 só. Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela”. Ele relatou que a jovem havia viajado 14 horas de ônibus para sair da Ucrânia e que a mãe dela enviara áudios dos bombardeios. “Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália”, escreveu. Em seguida, acrescentou: “Às vezes tomarei decisões por nós? E ela ainda pode entrar pra nossa agência! Gata e novinha!”.
A proposta de criar uma agência própria voltou a aparecer em janeiro de 2024, quando Diogo sugeriu abrir a empresa e alugar uma casa ou um apartamento para acomodar as mulheres. “Vamos fechar essa agência irmão? Ajuda muito pra segurar essas meninas? daí eu alugo uma casa tbm ou ap grande pela agência! Não fica atrelado à gente!”, escreveu o promoter. Em março, a jovem ucraniana voltou a ser mencionada entre as mulheres encaminhadas para um jantar de Vorcaro em um bar nos Jardins, em São Paulo. Antes do evento, Diogo perguntou ao banqueiro: “Mando [as duas]? Nossas refugiadas?”. No mês seguinte, Vorcaro determinou que mulheres da Ucrânia e da Rússia fossem dispensadas do grupo. “Ucrania e Russia vamos mandar embora”, escreveu. Diogo lembrou que o país de origem da jovem ucraniana continuava em guerra. Vorcaro, então, afirmou que avaliaria pessoalmente quem permaneceria e quem deixaria a agência, após encontrar as mulheres no dia seguinte para fazer uma “seleção”.







