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Por Antônio Pitangui de Salvo, produtor rural, engenheiro agrônomo e presidente do Sistema Faemg Senar
A geopolítica voltou ao centro das decisões econômicas globais. As disputas entre grandes potências, o avanço do protecionismo e a fragmentação do comércio internacional estão redesenhando as relações entre os países. Questões antes restritas à diplomacia passaram a influenciar diretamente o fluxo de mercadorias, os investimentos e o acesso aos mercados.Há hoje uma crescente polarização entre Estados Unidos e China. Ao mesmo tempo, a União Europeia endurece suas exigências sanitárias, ambientais e regulatórias. Nesse contexto, não basta ao Brasil produzir alimentos com eficiência. É preciso preservar a capacidade de dialogar e negociar com todos os parceiros comerciais. Talvez essa seja uma das maiores preocupações do agro brasileiro atualmente.Quando disputas ideológicas interferem nas relações comerciais, perde o produtor, perde a indústria e perde o país. Os sinais desse novo cenário já são evidentes. Os Estados Unidos ampliam a pressão sobre produtos brasileiros por meio da Seção 301, impondo tarifas adicionais que atingem uma parcela significativa das exportações. Mas, vale destacar que a inclusão de mais produtos do agro brasileiro entre as exceções às tarifas dos EUA demonstra a relevância da nossa produção para o mercado norte-americano. Na União Europeia, além das dificuldades para concluir o acordo com o Mercosul, multiplicam-se as restrições. A política de tolerância zero para determinadas substâncias na produção de carne, somada à exigência de controles cada vez mais rigorosos, demonstra como barreiras regulatórias podem limitar o acesso a mercados estratégicos.A China, principal destino da carne bovina brasileira, também impõe novos desafios. A sobretaxa de 55% para embarques que ultrapassarem a cota anual de 2026 mostra que até mesmo mercados estratégicos recorrem a mecanismos de proteção para resguardar seus interesses.Além das tarifas, aumentam as exigências relacionadas à sustentabilidade, à rastreabilidade e às condições de trabalho nas cadeias produtivas. Embora o Brasil possua uma das legislações trabalhistas mais rigorosas do mundo, o desafio está em comprovar o cumprimento dessas regras. No comércio internacional, burocracia também custa mercado.Também é um equívoco acreditar que restringir as exportações tornará os alimentos mais baratos para os brasileiros. Na prática, a redução da renda no campo compromete investimentos, reduz a competitividade e enfraquece um dos setores que mais contribuem para a balança comercial brasileira.O Brasil precisa exercer uma liderança mais firme nas negociações do Mercosul, especialmente na definição das cotas de exportação. Em Minas Gerais, os reflexos desse cenário já atingem cadeias importantes, como a do mel. Apesar da elevada competitividade, o produto brasileiro perdeu sua cota de exportação para a União Europeia.Mais do que nunca, o país precisa recuperar uma diplomacia comercial técnica e orientada pelos interesses nacionais. Em um mundo marcado por disputas geopolíticas, negociar com todos tornou-se uma condição indispensável para preservar a competitividade do agronegócio e o crescimento da economia.







