Ouça este conteúdo
A Epic Games, dona do Fortnite, acusou a Apple de usar lobistas em Washington para pressionar o governo de Donald Trump contra o Brasil. A denúncia foi feita pelo CEO e fundador da empresa, Tim Sweeney, durante uma entrevista coletiva virtual com jornalistas brasileiros na quinta-feira (30/07), segundo a Folha de S.Paulo. O executivo relacionou a suposta atuação da fabricante do iPhone à decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que obrigou a Apple a permitir lojas de aplicativos e meios de pagamento concorrentes no sistema iOS. Para Sweeney, a empresa tenta prejudicar as relações entre Brasil e Estados Unidos para manter taxas e restrições que a Epic considera ilegais e anticoncorrenciais.
Fique por dentro! Receba as notícias do G5 Minas em primeira mão no WhatsApp.
Sweeney citou principalmente o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão que recomendou ao presidente Donald Trump a aplicação das duas últimas levas de tarifas sobre produtos brasileiros, que podem chegar a 37,5%. Segundo o executivo, aliados da Apple no USTR estariam ameaçando países que adotam medidas para reduzir o controle da empresa sobre a distribuição de aplicativos. “A Apple está violando a lei no Brasil, e seus aliados no governo dos Estados Unidos, em especial no escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), estão constantemente ameaçando todos esses importantes parceiros internacionais.” O tarifaço que entrou em vigor em 22 de julho inclui uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras e foi justificado pelo governo americano, entre outros pontos, por práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e aos serviços de pagamento. A investigação também envolveu tarifas consideradas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Apesar da acusação feita por Sweeney, os documentos públicos do USTR registram a pressão comercial contra o Brasil, mas não apontam a Apple como responsável pela abertura da investigação ou pela aplicação das tarifas. A relação entre o suposto lobby da empresa e as medidas contra o Brasil é uma acusação feita pela Epic Games e contestada pela Apple. “Isso é muito preocupante e representa uma ameaça à democracia nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. A Apple tem agido de forma extremamente descarada e sem qualquer constrangimento nesse sentido. Esperamos que, um dia, ela seja responsabilizada. É vergonhoso que uma empresa americana interfira nas boas relações internacionais dessa maneira”, afirmou Sweeney.
A disputa também envolve as regras impostas à Apple no Brasil. Em dezembro de 2025, o Cade homologou um acordo com a empresa para ampliar a concorrência no ecossistema do iPhone. O compromisso determina que a Apple permita lojas alternativas, pagamentos de terceiros e links para ofertas feitas fora dos aplicativos. O acordo tem duração de três anos e prevê multa de até R$ 150 milhões em caso de descumprimento. A investigação começou em 2022, após uma denúncia do Mercado Livre sobre possível abuso de posição dominante na distribuição de aplicativos para aparelhos com iOS. A Epic, porém, afirma que as condições adotadas ainda dificultam a concorrência. Segundo a desenvolvedora, a Apple cobra 21% sobre compras feitas por sistemas de pagamento de terceiros, 15% sobre transações realizadas na internet a partir de links inseridos em aplicativos e 5% sobre o faturamento de lojas instaladas nos aparelhos. As taxas foram apresentadas pela própria Epic em uma manifestação publicada em junho. Sweeney também afirmou que um usuário brasileiro precisa passar por nove etapas para instalar uma loja alternativa no iPhone, enquanto na União Europeia o processo foi reduzido a seis.
A Apple classificou como falsas as declarações de Sweeney e da Epic Games. A companhia afirmou que continua apoiando desenvolvedores brasileiros e destacou que o acordo firmado com o Cade prevê comissões reduzidas, formas alternativas de pagamento e novos canais para distribuição de aplicativos. A fabricante também disse trabalhar com autoridades reguladoras brasileiras para manter salvaguardas de segurança no ambiente digital e rejeitou a acusação de que os relatórios exigidos das lojas concorrentes funcionariam como mecanismo de espionagem, afirmando que os dados são necessários para calcular pagamentos relacionados ao uso de suas tecnologias. Segundo a Folha de S.Paulo, a Epic Games lançou sua loja para iPhones no Brasil no mesmo dia da entrevista, inicialmente com Fortnite e Rocket League Sideswipe. Sweeney afirmou que a empresa voltará a acionar o Cade para contestar as taxas e as barreiras que, na avaliação da desenvolvedora, ainda impedem uma concorrência efetiva com a App Store.







