Belo Horizonte, 5 de junho de 2026

A voz de Minas no portal que mais cresce!

Dark Horse vira alvo de críticas após trailer em inglês, tom ideológico e orçamento milionário

Com cerca de R$ 65 milhões já gastos, produção supera grandes obras do cinema brasileiro, envolve o banqueiro Daniel Vorcaro e levanta questionamentos sobre emendas parlamentares destinadas ao longa
Filme de Bolsonaro financiado por Daniel Vorcaro
Filme de Bolsonaro financiado por Daniel Vorcaro - Fotos: Instagram Jim Caviezel, Reprodução

Ouça este conteúdo

0:00

O trailer de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi divulgado nesta terça-feira (19/05) e mostrou que o filme já chega cercado de polêmicas antes mesmo da estreia. Além das discussões sobre o orçamento milionário e o financiamento ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraudes financeiras, a produção também chamou atenção pela linguagem escolhida. Mesmo sendo um filme nacional, sobre um político brasileiro e com cenas ambientadas no interior de Minas Gerais, toda a obra foi gravada originalmente em inglês, decisão que causou estranhamento e virou assunto nas redes sociais.

✅ Fique por dentro! Receba as notícias do G5 Minas em primeira mão no WhatsApp. 📲

A prévia do filme foi divulgada pelo deputado federal Mário Frias, produtor executivo da obra e autor do argumento do roteiro. No trailer, Bolsonaro aparece retratado como um homem religioso, perseguido por uma suposta conspiração midiática e protegido por Deus. Além disso, a produção recria momentos conhecidos da trajetória política do ex-presidente, incluindo a facada durante a campanha eleitoral em Minas Gerais, mas tudo acontece em inglês, o que gerou uma onda de questionamentos sobre a proposta do longa. A decisão destoou até mesmo de produções brasileiras consagradas que conquistaram o exterior mantendo o português original, como “Ainda Estou Aqui” e o próprio “Cidade de Deus”.

Outro ponto polêmico sobre “Dark Horse” é o orçamento milionário. Segundo informações divulgadas à GloboNews, o orçamento já realizado do filme está em cerca de US$ 13 milhões, o equivalente a R$ 65,7 milhões, embora o teto previsto em contratos de patrocínio possa chegar a R$ 134 milhões. O valor supera produções brasileiras recentes consideradas gigantes dentro do mercado nacional. “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, teve orçamento estimado em R$ 45 milhões, enquanto “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura, custou cerca de R$ 28 milhões. Até “Marighella”, considerado uma das produções nacionais mais robustas dos últimos anos, ficou na faixa dos R$ 10 milhões. A comparação fica ainda mais impressionante quando os números são colocados ao lado de clássicos do cinema mundial. “Alien: O Oitavo Passageiro, considerado um dos maiores clássicos da ficção científica, custou US$ 11 milhões na época e, corrigido pela inflação, o valor chegaria atualmente a cerca de US$ 48 milhões. Já “Mad Max”, que deu início à franquia, foi produzido com cerca de US$ 350 mil dólares australianos e, mesmo corrigido pela inflação, não ultrapassa US$ 1,5 milhão atualmente. Já “Rocky”, vencedor do Oscar de Melhor Filme, custou pouco mais de US$ 1 milhão na época, o equivalente a cerca de US$ 5,5 milhões hoje.

Na prática, “Dark Horse” possui mais que o dobro do poder financeiro que “Rocky” teve para construir toda sua produção. O valor também se aproxima de filmes independentes americanos premiados, como “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, feito com US$ 3,3 milhões, e “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, que custou cerca de US$ 25 milhões. A diferença é que essas produções tinham efeitos visuais complexos, cenas elaboradas e grandes estruturas técnicas. No caso de “Dark Horse”, porém, o trailer divulgado até agora não mostra elementos desse porte, o que levanta questionamentos sobre o que justificaria um orçamento tão elevado. Com cerca de US$ 13 milhões já gastos, o filme sobre Bolsonaro entra em um patamar muito acima de qualquer produção de ficção ou drama histórico realizada no Brasil na última década, se aproximando financeiramente do mercado de filmes independentes de médio porte dos Estados Unidos.

Além disso, o financiamento do longa também entrou na mira de investigações. O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria investido mais de R$ 60 milhões na produção e, segundo relatos recentes, vinha sendo pressionado pelo senador Flávio Bolsonaro para continuar realizando pagamentos ligados ao projeto. Paralelamente, investigações apontam suspeitas de envio de pelo menos R$ 7,7 milhões em emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme. Os repasses teriam sido feitos por parlamentares federais, estaduais e vereadores de São Paulo, levantando dúvidas sobre possível descumprimento das regras de transparência determinadas pelo STF para o uso de emendas públicas.

Enquanto o filme ainda não tem data de estreia confirmada, o trailer segue gerando repercussão nas redes sociais, também pelo tom adotado na narrativa. Na prévia divulgada, Bolsonaro aparece retratado como um homem perseguido e injustiçado, abordagem que recebeu críticas por reforçar um discurso político usado por aliados do ex-presidente para minimizar o peso dos ataques de 8 de janeiro em Brasília e questionar decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo sua condenação e prisão. Antes mesmo de chegar aos cinemas, “Dark Horse” já se transformou em um dos filmes mais controversos do país.