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A Rússia encerrou nesta terça-feira (16/09) um exercício militar realizado em Belarus, perto das fronteiras da Otan, com uma simulação de ataque nuclear que incluiu o novo míssil Orechnik, arma apresentada por Vladimir Putin e já testada em combate na Ucrânia em novembro do ano passado. A manobra, chamada Zapad (Ocidente), foi vista como uma demonstração de força do Kremlin e, pela primeira vez, admitida de forma aberta pelos envolvidos. “Estamos praticando de tudo aqui. Eles [os ocidentais] sabem disso também, não estamos escondendo. De armas convencionais a ogivas nucleares, precisamos ser capazes de fazer tudo isso”, declarou o ditador belarusso, Aleksandr Lukachenko. Apesar do tom, ele acrescentou: “Nós não estamos absolutamente planejando ameaçar ninguém com isso”.
Os jogos de guerra começaram na sexta-feira (12/9) e envolveram forças russas em número não divulgado, mobilizadas de forma rotativa nos quatro principais distritos militares do país, com participação direta de Belarus. Mesmo assim, a operação foi menor do que em anos anteriores, já que boa parte do contingente militar da Rússia está focado na Guerra da Ucrânia. Ainda assim, o exercício foi considerado estratégico, pois incluiu cenários que simulam uma invasão da Otan a Belarus e o contra-ataque russo-belarusso, com emprego de armas nucleares táticas e retomada de território.
A Otan criticou a manobra militar, sobretudo porque drones russos entraram no espaço aéreo da Polônia na semana passada, em um episódio que Moscou classificou como acidente durante ataques à Ucrânia. Como resposta, a aliança ocidental reforçou a Operação Sentinela Oriental, que protege o espaço aéreo do Leste Europeu, e enviou caças franceses à Polônia, enquanto aeronaves britânicas devem chegar em breve. Apesar das críticas, Moscou fez um gesto inédito desde a invasão da Ucrânia em 2022: convidou militares americanos para observar as manobras, ainda que o acesso tenha sido limitado. O gesto foi visto como um sinal de tentativa de manter algum diálogo com os Estados Unidos, mesmo em meio à tensão.
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O ponto mais sensível do exercício foi o uso de dois bombardeiros Tu-160, capazes de lançar armas nucleares, que simularam ataques no mar de Barents, no Ártico, além da repulsa a uma invasão anfíbia na região de Murmansk. De acordo com o Ministério da Defesa de Belarus, o Orechnik — também chamado de “aveleira” em russo — foi lançado em simulação. Trata-se de um míssil balístico de alcance intermediário, projetado para transportar ogivas independentes e com capacidade de cobrir toda a Europa. No entanto, na Guerra da Ucrânia, o Kremlin o utilizou em testes com cargas cinéticas, sem explosivos. Lukachenko já afirmou que Putin pretende posicionar pelo menos um regimento dessa arma em Belarus, reforçando o alcance estratégico do arsenal, classificado pelo líder russo como “impossível de interceptar”. Além disso, Moscou já posicionou no país vizinho ogivas nucleares táticas, desenvolvidas para uso direto em campo de batalha.
A movimentação militar aumentou o alerta em países vizinhos, como Polônia, Letônia e as nações do Báltico, que veem risco de instabilidade na região. Nesta terça, a Letônia declarou que a Otan ainda não dispõe de sistemas eficazes para neutralizar ameaças combinadas, que vão desde mísseis e caças até enxames de drones de ataque e drones iscas sem carga bélica. A Polônia, por sua vez, reconheceu o mesmo problema, apesar de ter conseguido interceptar parte dos 21 drones russos que violaram seu espaço aéreo, classificando o episódio como um teste intencional de Moscou. Para tentar se adaptar, o governo polonês enviará uma equipe a Kiev a fim de aprender com as táticas desenvolvidas pelos ucranianos, que lidam diariamente com o uso intensivo de drones desde o início do conflito.







