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Você sabia que a dipirona, conhecida por muitos brasileiros como Novalgina, está entre os medicamentos mais vendidos do país, mas é proibida em vários países da Europa e nos Estados Unidos? Em 2022, mais de 215 milhões de doses foram comercializadas no Brasil, segundo a Anvisa, mesmo com os riscos associados ao remédio. O principal motivo da proibição internacional está relacionado a um possível efeito colateral grave: a agranulocitose, uma condição rara e potencialmente fatal que reduz drasticamente os glóbulos brancos, células essenciais para o sistema imunológico. Apesar de seu uso ser amplamente aceito no Brasil, onde é vendida sem necessidade de receita médica, a dipirona foi retirada do mercado dos EUA em 1977, após estudos apontarem que medicamentos semelhantes, como a aminopirina, causavam reações perigosas em 1 a cada 127 pessoas. Países como Japão, Austrália, Reino Unido e parte da União Europeia seguiram o mesmo caminho e também baniram o fármaco.
Mesmo assim, medicamentos populares como Dorflex e Neosaldina seguem sendo consumidos no Brasil, e a eficácia da dipirona no alívio da dor e da febre é amplamente reconhecida. Para especialistas, ela pode competir até com opioides em alguns casos, especialmente em dores pós-operatórias ou cólicas renais. Pesquisas mais recentes têm mostrado números menos alarmantes. A partir da década de 1980, estudos conduzidos em países como Itália, Alemanha, Hungria, Espanha e Suécia encontraram uma incidência de 1,1 caso de agranulocitose para cada 1 milhão de usuários. No Brasil, a Anvisa afirma que, diante dos baixos índices de reações adversas, os benefícios superam os riscos, embora a dosagem e o uso correto sejam sempre reforçados como essenciais para a segurança do paciente. Ainda assim, o mecanismo exato de ação da dipirona ainda não é completamente compreendido, mas a hipótese mais aceita é que ela inibe uma molécula inflamatória chamada COX, principalmente uma versão dela presente no sistema nervoso central.
O caso da dipirona se conecta com outro medicamento amplamente utilizado no Brasil: o paracetamol. Assim como a dipirona, o paracetamol tem seu mecanismo de ação pouco compreendido, apesar de ser usado há mais de um século. Um estudo de 2019 conduzido pelo psicólogo Dominik Mischkowski, da Universidade de Ohio, mostrou que ele pode afetar não apenas a dor física, mas também as emoções e a empatia. No entanto, esses dados foram obtidos em experimentos controlados e não refletem totalmente o comportamento em situações reais, segundo o próprio pesquisador.
O maior problema do paracetamol está na dosagem. O excesso pode causar falência hepática aguda, uma condição grave que exige internação e, em alguns casos, transplante de fígado. Estima-se que nos EUA e Reino Unido, o paracetamol seja a principal causa desse tipo de falência. O limite diário recomendado para adultos é de 4 mil miligramas (4g), mas o problema ocorre quando pacientes gripados, por exemplo, tomam vários medicamentos ao mesmo tempo sem perceber que todos contêm paracetamol. Isso sobrecarrega o fígado, que transforma parte do fármaco em uma substância tóxica chamada quinoneimina. Em pequenas quantidades, o corpo consegue neutralizar essa substância, mas em excesso, o dano é severo.
Entre 1998 e 2003, 48% das overdoses de paracetamol nos EUA ocorreram de forma acidental, ou seja, os pacientes ultrapassaram a dose segura sem saber. No Brasil, não há dados consolidados sobre esse tipo de ocorrência. Ainda assim, a Anvisa reforça: “O uso do medicamento deve ser feito com cautela, sempre observando a dose máxima diária e o intervalo entre as doses, conforme as recomendações contidas na bula, para cada faixa etária”.







