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Pesquisadores europeus conseguiram, pela primeira vez, sequenciar o genoma completo de um habitante do Egito Antigo, um homem que viveu há mais de 4.500 anos durante o Antigo Império. A análise revelou que ele possuía pele escura, cabelos e olhos castanhos, com ancestralidade genética predominantemente africana, mas também com traços significativos ligados à Ásia Ocidental, especificamente à região da antiga Mesopotâmia, atual Iraque. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (02/07) na revista científica Nature e representam um marco para a arqueogenômica, área que estuda o DNA de populações humanas do passado.
Até então, os estudos genéticos sobre os egípcios antigos se limitavam a fragmentos pequenos de DNA. Isso porque, apesar das boas condições de preservação dos corpos devido ao clima seco e à mumificação, o calor danifica o material genético. Agora, com o trabalho coordenado por cientistas do Instituto Francis Crick e da Universidade John Moores de Liverpool, esse obstáculo foi superado. O genoma foi extraído de um esqueleto encontrado em Nuwayrat, 265 km ao sul do Cairo, região considerada parte do Médio Egito.
O homem estudado foi sepultado entre 2855 a.C. e 2570 a.C. dentro de uma urna funerária de cerâmica, colocada em uma tumba escavada na rocha — indício de que ele tinha certo prestígio social. Ainda assim, marcas em seu esqueleto, como osteoartrite e lesões compatíveis com longos períodos sentado e braços estendidos, sugerem que ele era um artesão, provavelmente um oleiro. Ferimentos nos pés reforçam essa hipótese, já que oleiros egípcios usavam os pés para girar a roda que moldava os vasos.



A análise dos ossos indica que ele tinha entre 44 e 64 anos quando morreu, com maior chance de estar na faixa mais velha, e media até 1,60 metro. Já os dados genéticos apontam para cabelos e olhos castanhos e pele negra, embora haja certa incerteza sobre essa característica, por envolver muitos genes ainda pouco compreendidos. Comparações com outras populações mostraram que cerca de 80% de seu DNA se assemelha ao de grupos neolíticos do norte da África, principalmente do atual Marrocos. Os 20% restantes têm origem asiática, ligados ao Neolítico da Mesopotâmia.
Apesar da ancestralidade mista, análises químicas nos ossos mostram que ele cresceu no próprio Egito. “É a primeira evidência genética em favor de potenciais movimentos de populações chegando ao Egito nessa época”, explicou Pontus Skoglund, coordenador do estudo e membro do Laboratório de Genômica Antiga do Instituto Francis Crick. Esse dado reforça teorias sobre o contato entre Egito e Mesopotâmia, regiões que já mantinham relações comerciais intensas na Antiguidade. Inclusive, a própria origem da agricultura no Egito — com cereais como trigo e cevada — teria sido influenciada por práticas mesopotâmicas. E, segundo pesquisadores, é possível que até o sistema de escrita egípcio tenha sido inspirado pela escrita cuneiforme usada na Mesopotâmia.







