Belo Horizonte, 7 de março de 2026

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Genoma completo de egípcio de Nuwayrat é decifrado pela 1ª vez

Descoberta inédita mostra ancestralidade africana e asiática em homem do Antigo Império e aponta possíveis conexões com a Mesopotâmia
Genoma habitante do Egito antigo
Genoma habitante do Egito antigo

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Pesquisadores europeus conseguiram, pela primeira vez, sequenciar o genoma completo de um habitante do Egito Antigo, um homem que viveu há mais de 4.500 anos durante o Antigo Império. A análise revelou que ele possuía pele escura, cabelos e olhos castanhos, com ancestralidade genética predominantemente africana, mas também com traços significativos ligados à Ásia Ocidental, especificamente à região da antiga Mesopotâmia, atual Iraque. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (02/07) na revista científica Nature e representam um marco para a arqueogenômica, área que estuda o DNA de populações humanas do passado.

Até então, os estudos genéticos sobre os egípcios antigos se limitavam a fragmentos pequenos de DNA. Isso porque, apesar das boas condições de preservação dos corpos devido ao clima seco e à mumificação, o calor danifica o material genético. Agora, com o trabalho coordenado por cientistas do Instituto Francis Crick e da Universidade John Moores de Liverpool, esse obstáculo foi superado. O genoma foi extraído de um esqueleto encontrado em Nuwayrat, 265 km ao sul do Cairo, região considerada parte do Médio Egito.

O homem estudado foi sepultado entre 2855 a.C. e 2570 a.C. dentro de uma urna funerária de cerâmica, colocada em uma tumba escavada na rocha — indício de que ele tinha certo prestígio social. Ainda assim, marcas em seu esqueleto, como osteoartrite e lesões compatíveis com longos períodos sentado e braços estendidos, sugerem que ele era um artesão, provavelmente um oleiro. Ferimentos nos pés reforçam essa hipótese, já que oleiros egípcios usavam os pés para girar a roda que moldava os vasos.

Restos do homem de Nuwayrat
Restos do homem de Nuwayrat
Restos do homem de Nuwayrat
Restos do homem de Nuwayrat
Restos do homem de Nuwayrat
Restos do homem de Nuwayrat

A análise dos ossos indica que ele tinha entre 44 e 64 anos quando morreu, com maior chance de estar na faixa mais velha, e media até 1,60 metro. Já os dados genéticos apontam para cabelos e olhos castanhos e pele negra, embora haja certa incerteza sobre essa característica, por envolver muitos genes ainda pouco compreendidos. Comparações com outras populações mostraram que cerca de 80% de seu DNA se assemelha ao de grupos neolíticos do norte da África, principalmente do atual Marrocos. Os 20% restantes têm origem asiática, ligados ao Neolítico da Mesopotâmia.

Apesar da ancestralidade mista, análises químicas nos ossos mostram que ele cresceu no próprio Egito. “É a primeira evidência genética em favor de potenciais movimentos de populações chegando ao Egito nessa época”, explicou Pontus Skoglund, coordenador do estudo e membro do Laboratório de Genômica Antiga do Instituto Francis Crick. Esse dado reforça teorias sobre o contato entre Egito e Mesopotâmia, regiões que já mantinham relações comerciais intensas na Antiguidade. Inclusive, a própria origem da agricultura no Egito — com cereais como trigo e cevada — teria sido influenciada por práticas mesopotâmicas. E, segundo pesquisadores, é possível que até o sistema de escrita egípcio tenha sido inspirado pela escrita cuneiforme usada na Mesopotâmia.