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O ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, afirmou em entrevista à BBC News Brasil que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é uma “página virada” para Donald Trump. Segundo o diplomata, o republicano entendeu que foi mal informado ou induzido ao erro ao impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Shannon destacou que Trump reconheceu o fracasso ao tentar proteger Bolsonaro da prisão e garantir sua participação em futuras eleições. “Trump sabe que sua tentativa de proteger Bolsonaro da prisão e garantir que ele pudesse disputar eleições fracassou. Por que ele vai fracassar de novo quando já fracassou uma vez? Trump é astuto nesse ponto. Ele sabe quando não pode avançar em uma frente e procura outra”, afirmou.
De acordo com Shannon, Bolsonaro perdeu relevância para Trump e para os Estados Unidos após o Brasil deixar claro que não iria ceder às pressões externas. O diplomata explicou que o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve firme sua posição, garantindo a continuidade das acusações e a inelegibilidade de Bolsonaro. “Acho que perdeu relevância principalmente porque o Brasil deixou muito claro que não iria ceder. E a instituição brasileira em questão — o Supremo Tribunal Federal — deixou muito claro que iria continuar com a acusação e manter a proibição de Bolsonaro concorrer nas próximas eleições. Uma vez que isso ficou evidente, o que os Estados Unidos poderiam fazer?”, questionou.
Em julho, Trump chegou a enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), justificando as tarifas de 50% e alegando que Bolsonaro estava sendo alvo de uma “caça às bruxas”. No entanto, segundo Shannon, a postura do presidente americano mudou após perceber que as instituições brasileiras não cederiam. A virada ocorreu durante a Assembleia Geral da ONU, em 23 de setembro, quando Trump e Lula tiveram um breve encontro nos bastidores. Na ocasião, o norte-americano afirmou ter tido uma “boa química” com Lula e disse que os dois combinariam um novo encontro.
Shannon explicou que as tarifas impostas por Trump poderiam gerar efeitos negativos não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, impactando consumidores e empresas que dependem de produtos brasileiros. “Trump estava adotando uma estratégia que, quase certamente, continuaria até pelo menos as eleições brasileiras. Era um longo período. E as tarifas não apenas teriam impacto no Brasil, mas também nos Estados Unidos — não apenas nos consumidores americanos, mas nas empresas americanas que dependem de produtos brasileiros ou que têm empresas brasileiras em suas cadeias de suprimento. E elas teriam que aumentar os preços de seus produtos. Isso se tornaria cada vez mais controverso e desafiador, especialmente se o Brasil não desse sinais de ceder — e o Brasil não deu sinais de ceder”, afirmou o diplomata.
Apesar da reaproximação entre Trump e Lula, Shannon acredita que as sanções contra ministros do STF e outras autoridades brasileiras devem ser mantidas. Para ele, o foco das futuras negociações entre os EUA e o Brasil deverá ser o comércio e as questões econômicas. “Acho que o presidente foi exposto, por meio do setor privado americano, a uma espécie de curso intensivo sobre o impacto que essas tarifas teriam no dia a dia de muitos americanos”, concluiu.







