Ouça este conteúdo
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado recentemente na Revista de Saúde Pública, revelou que a maioria dos brasileiros consome proteína em níveis adequados, contrariando a crença popular de que há um déficit desse nutriente na dieta nacional. Segundo a pesquisa, apenas 2,6% da população apresenta ingestão proteica abaixo das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere o consumo diário de cerca de 0,8 gramas por quilo de peso corporal, o equivalente a 180g de peito de frango cozido ou 2,5 doses de whey protein.
A análise considerou diferentes faixas socioeconômicas e mostrou que até mesmo entre os 20% mais pobres não há necessidade fisiológica significativa de suplementação proteica. Ainda assim, cresce no país o uso de suplementos como o whey protein, motivado por objetivos estéticos ou de emagrecimento. De acordo com os pesquisadores, essa busca exagerada por fontes extras de proteína ignora as reais necessidades nutricionais da população brasileira.
Em contraste com o consumo de proteína, os dados evidenciam uma séria deficiência na ingestão de frutas, legumes e verduras. Famílias do quintil mais pobre ingerem apenas 3,4% de calorias provenientes desses alimentos, enquanto entre os mais ricos esse número sobe para 6,4%, ambos abaixo dos 10% recomendados. Além disso, segundo o levantamento Vigitel 2023, 78,6% dos adultos das capitais brasileiras não consomem os 400 gramas diários de alimentos vegetais frescos sugeridos pela OMS.
Os autores do estudo alertam para o que chamam de “mito do déficit proteico”, criado na década de 1950 com base em políticas internacionais que visavam combater a desnutrição em países em desenvolvimento. Essa narrativa levou à formulação de estratégias de mercado e políticas públicas que priorizam o consumo de proteínas, especialmente de origem animal, em detrimento de uma alimentação mais diversificada e rica em micronutrientes.
A pesquisa destaca ainda que a indústria de suplementos alimentares lucra com a percepção equivocada de que a população precisa de mais proteína. Isso favorece o crescimento de um mercado que oferece produtos caros e altamente especializados para suprir uma carência que, segundo os dados, não existe. “Faltam alimentos de alta densidade nutricional, não proteínas”, concluem os pesquisadores.







