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A Zona da Mata de Minas Gerais está vivendo uma crise de segurança pública marcada pelo crescimento do crime organizado, que dita onde e quando se pode roubar ou matar. Em Juiz de Fora, por exemplo, uma facção nacional com origem no Rio de Janeiro impõe regras que, segundo fontes policiais da ativa e da reserva, restringem ações violentas no município sem a devida autorização do comando criminoso. Entretanto, esse suposto “controle” contribui para o aumento de homicídios em cidades vizinhas como Ubá, Viçosa e Muriaé. Já no Vale do Rio Doce, a situação é igualmente crítica, mas por outro motivo: a fragmentação de gangues locais causa disputas violentas e eleva os índices de assassinatos.
O impacto dessa dominação criminosa aparece nos números. Viçosa, por exemplo, teve 34 homicídios por 100 mil habitantes em 2024 – a terceira pior taxa do estado. Manhuaçu e Ubá ocupam, respectivamente, a quarta e nona posição nesse ranking. Além disso, cidades como Ponte Nova e Manhuaçu registram que 1 em cada 5 crimes violentos foi homicídio. Embora Juiz de Fora concentre a maior população, as mortes na cidade (35) são superadas, proporcionalmente, por municípios bem menores. Isso reforça a tese de que o centro regional evita confronto direto enquanto o entorno absorve o caos.
O especialista em segurança pública Carlos Júnior afirma que essa “paz controlada” tem um custo: “Juiz de Fora tem poucos homicídios e roubos, mas não é só porque a polícia está trabalhando muito. É porque há uma orientação da facção que controla o crime de não assaltar, de não matar sem ordem expressa”. Enquanto isso, cidades como Muriaé, Viçosa, Ponte Nova e especialmente Ubá enfrentam ondas de violência crescente, agravadas pela dificuldade das autoridades em reagir com eficácia.
Os dados da Sejusp revelam que 67,33% dos homicídios registrados nas duas regiões foram cometidos com armas de fogo. Os principais motivos foram conflitos interpessoais (26,36%), envolvimento com drogas (24,55%) e atuação de facções (14,55%). Em relação aos crimes violentos em geral – que incluem estupro, extorsão, roubo e sequestro –, os roubos lideram com 64,1% dos casos nos municípios acima de 50 mil habitantes. Na Zona da Mata, esse número cai para 42,8%, ainda assim mantendo a liderança, seguidos por tentativas de homicídio (16,7%) e homicídios consumados (11,3%).
Os bairros com maior número de mortes em 2024 incluem Baixada (Manhuaçu), Nova Viçosa e Bom Jesus (Viçosa), Cidade Nova (Ponte Nova) e Marumbi (Juiz de Fora). A maioria dos crimes ocorreu em vias públicas, enquanto bares, lanchonetes, residências e comércios também foram locais frequentes de violência. Os autores e vítimas, na maior parte dos casos, não tinham relação direta, embora houvesse porcentagem significativa de casos envolvendo conhecidos, parentes e até cônjuges.







