Belo Horizonte, 7 de março de 2026

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Césio-137 é encontrado pela primeira vez em rio de São Paulo

Pesquisa revela traços do material radioativo da Guerra Fria no Rio Ribeira de Iguape e reforça evidências do impacto humano no Antropoceno
Foto: Fagner Vieira

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A presença de Césio-137, material radioativo ligado aos testes nucleares da Guerra Fria, foi identificada pela primeira vez nos sedimentos de um rio tropical brasileiro, segundo um estudo da USP. A pesquisa detectou o elemento no Rio Ribeira de Iguape, no Vale do Ribeira, e aponta que, apesar de não oferecer risco à saúde, o Césio-137 funciona como marcador do Antropoceno, período em que a atividade humana se tornou o principal agente de mudança no planeta. “O Césio-137 é um radioisótopo totalmente antropogênico. Ou seja, ele não existia na natureza anteriormente às nossas ações […] Ele é associado a testes de bomba atômica. A partir desses testes, ele foi disseminado globalmente por meio de precipitações repetidas, o que chamamos de fallout”, explica para A Tribuna o geógrafo e autor do estudo Breno Schmidtke Rodrigues, de 25 anos.

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O pesquisador afirma que as amostras coletadas em Sete Barras mostram quantidades extremamente pequenas do elemento, muitas vezes abaixo do limite de detecção dos equipamentos. Ele classifica os valores como “radiação de fundo”, reforçando que são concentrações muito inferiores às que representam perigo. A diferença para casos como o de Goiânia, em 1987, está na intensidade, já que ali houve liberação de cloreto de Césio em grande quantidade, enquanto no Vale do Ribeira o material aparece apenas como resíduo atmosférico. “Na radioterapia, é usada a radiação pra matar a célula cancerígena, então precisa de um feixe bem concentrado, uma alta potência. No caso do Vale de Ribeira, é quase que o restinho”, compara.

O estudo aponta que o Césio-137 chegou ao Vale do Ribeira após ser transportado pela atmosfera entre as décadas de 1950 e 1980 e cair no solo com as chuvas. Com o tempo, o material se fixou a minerais argilosos e foi levado lentamente para os rios, tornando-se parte da memória geológica da região. Para o pesquisador, esse resíduo funciona como uma “pegada” da era nuclear. A ideia se relaciona ao conceito de Antropoceno, defendido desde os anos 2000 por cientistas como Paul Crutzen, que descrevem um período marcado pela influência direta das ações humanas sobre o ambiente.

Conforme a pesquisa, substâncias como radionuclídeos, microplásticos e metais pesados contribuem para evidenciar essa interferência humana, e o Césio-137 se destaca como um indicador claro desse processo. Embora o Antropoceno ainda não tenha reconhecimento oficial, descobertas como a do Rio Ribeira reforçam o debate sobre os impactos acumulados da atividade humana. “Temos os microplásticos aparecendo, desmatamento, extinção de espécies e por assim vai”, aponta Rodrigues. Para ele, o objetivo não é alarmar, mas mostrar a dimensão dessas mudanças. “Não é normal encontrar Césio em um rio. Assim como não é normal achar mais microplásticos do que peixes. […] O trabalho serve como um sinal de alerta para entender a magnitude das nossas intervenções”, conclui.