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Minas Gerais guarda grandes tesouros, e um deles tem milhares de anos. O fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil foi achado no solo mineiro, na região de Lagoa Santa, na Grande Belo Horizonte. Trata-se de Luzia, uma mulher pré-histórica cujos restos foram descobertos em 1975 por uma equipe de arqueólogos liderada por Annette Laming Emperaire. Desde então, Luzia tem sido peça-chave para o entendimento sobre os primeiros habitantes das Américas.
A descoberta aconteceu durante uma missão arqueológica franco-brasileira, sob a chancela da Unesco. O achado colocou o Brasil no mapa da paleontologia mundial e trouxe uma nova perspectiva sobre a ocupação humana no continente. Luzia viveu há aproximadamente 11.500 anos, sendo um dos fósseis mais antigos das Américas. A importância de sua descoberta deu continuidade aos estudos iniciados pelo naturalista dinamarquês Peter Lund no século XIX, considerado o pai da paleontologia e arqueologia brasileiras.
O nome Luzia surgiu de forma espontânea, em um trocadilho. Quando perguntaram ao antropólogo Walter Neves se esse fóssil seria a versão brasileira de Lucy, o famoso fóssil descoberto na Etiópia em 1974, ele respondeu que estava mais para “Luzia”. Assim, o nome foi adotado e permanece até hoje.
Ao longo dos anos, pesquisas sobre Luzia revelaram novas informações. Em 2018, um estudo que analisou DNA fóssil concluiu que seus traços eram mais próximos dos povos indígenas brasileiros, e não africanos, como se imaginava anteriormente. Esse achado alterou a reconstituição facial feita na década de 1990, na Inglaterra. Quem quiser ver a versão mais recente pode visitar o Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte.
A trajetória de Luzia sofreu um revés em 2018, quando o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruiu boa parte do acervo da instituição. Fragmentos de seu crânio, no entanto, foram resgatados e permanecem guardados enquanto os especialistas avaliam a melhor forma de restaurá-los e expô-los novamente ao público.
A arqueóloga responsável pela descoberta, Annette Laming Emperaire, teve uma trajetória marcada pelo interesse na pré-história sul-americana. Francesa, ela participou da Resistência contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial antes de se dedicar aos estudos arqueológicos. No Brasil, além da pesquisa em Lagoa Santa, investigou os sambaquis litorâneos e os antigos povos indígenas da região Sul. Seu legado está preservado no Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire (Caale), em Lagoa Santa, que mantém viva a memória dessa importante pesquisadora.