Ouça este conteúdo
Em um novo desdobramento da colaboração premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) surge novamente em um contexto de incitação a um golpe de Estado no final de 2022. O depoimento de Cid, que foi divulgado pela primeira vez em novembro de 2023 pelo UOL, agora ganha mais detalhes, incluindo a menção à ala mais radical do grupo que defendia a ruptura institucional.
Cid afirmou que Michelle e Eduardo estavam entre os principais envolvidos na articulação golpista, sendo descritos como os membros mais “radicais” de um núcleo que buscava incitar o ex-presidente Bolsonaro a dar um golpe. Segundo ele, esse grupo acreditava que o ex-presidente teria apoio popular suficiente, especialmente dos chamados CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores), para realizar a ação. Cid revelou que Michelle e Eduardo eram parte de uma “segunda parte” da ala radical, ao lado de outras figuras como Filipe Martins, Onyx Lorenzoni, Gilson Machado e o general Mario Fernandes.
“Essas pessoas conversavam constantemente com o ex-presidente, instigando-o para dar um golpe de Estado”, disse Cid em seu depoimento. Ele descreveu ainda a divisão do grupo em dois segmentos: o primeiro, composto por figuras como o ex-ministro Eduardo Pazuello e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se concentrava em buscar fraudes nas urnas; já o segundo, formado por Michelle, Eduardo e outros, incentivava Bolsonaro a agir contra a democracia.
Ainda de acordo com o depoimento de Cid, havia um outro grupo, o “conservador”, que sugeria ao ex-presidente que adotasse uma postura de “líder da oposição” a Lula e mandasse o povo “para casa”. Entre as figuras desse grupo estavam os senadores Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira, além de outras lideranças políticas.
Quando as primeiras revelações sobre o depoimento de Cid vieram à tona, Michelle e Eduardo Bolsonaro se manifestaram refutando as acusações. A defesa de Michelle considerou as afirmações como “absurdas e sem qualquer amparo na verdade”, afirmando que o ex-presidente e sua família jamais estiveram envolvidos em movimentos que visassem a ruptura institucional. Eduardo, por sua vez, classificou a delação de Cid como “devaneio” e “fantasia”.
Recentemente, em uma nova fala, Michelle reforçou a sua posição, chamando a delação de Cid de “cortina de fumaça” e alegando que o governo atual e o sistema político buscam desviar a atenção para esconder suas falhas. “Todos sabem o motivo para requentarem isso agora. Esse governo e o sistema vivem de cortinas-de-fumaça para esconder a sua traição contra o povo”, disse ela.
Além disso, a defesa do ex-presidente Bolsonaro criticou o vazamento da íntegra da colaboração de Cid, considerando-o um ato de “investigação semissecreta”. Os advogados de Bolsonaro, Paulo Cunha Bueno, Daniel Tesser e Celso Sanchez Vilardi, manifestaram indignação com o vazamento e questionaram a falta de acesso pleno ao conteúdo da delação, destacando que isso prejudica o direito de ampla defesa.
O caso ainda está sob análise da Procuradoria-Geral da República, que decidirá se apresentará uma denúncia ao STF contra os envolvidos ou se arquivará os indiciamentos. No momento, Michelle e Eduardo Bolsonaro são cotados como possíveis candidatos à presidência em 2026, já que Jair Bolsonaro está inelegível até 2030.