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O dólar comercial encerrou o pregão em R$ 5,94, com queda de 1,47%, marcando o menor valor desde 29 de novembro. Essa desvalorização ocorre em meio ao alívio dos mercados financeiros após a não confirmação de tarifas comerciais esperadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre diversos países, incluindo o Brasil. A moeda americana vinha apresentando forte resistência acima de R$ 6 nos últimos meses.
Embora Trump tenha reiterado planos para investigar déficits comerciais e supostas práticas comerciais “injustas” de parceiros como União Europeia, China e México, nenhuma tarifa foi formalmente aplicada. A expectativa inicial era de que houvesse medidas concretas e severas no início de seu mandato, mas a ausência de tais ações trouxe alívio para o cenário global.
No Brasil, a desvalorização do dólar também reflete as expectativas em relação à política econômica do governo Lula. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou medidas fiscais que buscam aumentar a confiança dos investidores. Entre as principais ações estão a regulamentação da reforma tributária, a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e a reforma da previdência dos militares. Essas medidas foram vistas como passos positivos para estabilizar a economia e manter o dólar em patamares mais baixos.
Outros países da América Latina, como México e Chile, também registraram quedas semelhantes na cotação do dólar, o que reforça a tendência regional de fortalecimento das moedas locais frente à americana.
Desde o final de novembro de 2024, o dólar vinha se valorizando devido às medidas de contenção de despesas anunciadas pela equipe econômica do Brasil, que buscavam equilibrar as contas públicas. No entanto, a meta de déficit zero não foi suficiente para conter o receio dos mercados em relação à sustentabilidade fiscal.
Ademais, o ano de 2024 registrou a maior saída de dólares do Brasil desde o início da série histórica em 1982, com uma retirada de US$ 87,2 bilhões. Esse volume superou as exportações, resultando em um saldo negativo de US$ 18 bilhões. Fatores como a guerra no Oriente Médio e o conflito entre Rússia e Ucrânia também contribuíram para a instabilidade cambial.
Próximos desafios
Especialistas destacam que a estabilização da moeda em torno de R$ 5,70 dependerá de ações consistentes do governo, especialmente no fortalecimento do arcabouço fiscal. Segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, é necessário que o Brasil demonstre compromisso com a disciplina fiscal para recuperar a credibilidade no mercado. “Esse é o momento de reforçar o arcabouço fiscal, não de enfraquecer”, afirmou Mesquita durante o Fórum Econômico Mundial em Davos.
A manutenção do dólar abaixo de R$ 6 é vista como um alívio temporário, mas também como um indicador de que medidas acertadas podem trazer mais estabilidade ao cenário econômico brasileiro.