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Crianças contaminadas

Seis anos após a tragédia, estudo revela presença de metais pesados em 100% das crianças de Brumadinho, com níveis alarmantes de arsênio e aumento de doenças na população local

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Hoje, 25 de janeiro de 2025, Brumadinho completa seis anos do trágico rompimento da barragem da Vale, que causou a morte de 272 pessoas e ainda possui 3 pessoas não identificadas. Mesmo após seis anos, os impactos do desastre ainda ecoam na saúde da população local. Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz Minas e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou a presença de metais pesados, como arsênio, mercúrio, chumbo, cádmio e manganês, em 100% das amostras de urina coletadas de crianças com até seis anos de idade no município. A pesquisa, divulgada em 24 de janeiro, demonstrou que, entre 2021 e 2023, o nível de arsênio — um metal altamente tóxico — nas crianças aumentou de 42% para 57%, ultrapassando o limite de segurança.

O estudo destaca que a exposição aos metais é generalizada e está diretamente relacionada à proximidade com as áreas afetadas pelo rompimento da barragem e pelas atividades de mineração da região. A pesquisa aponta que a exposição a esses elementos pode ser prejudicial à saúde, sendo necessário um acompanhamento médico constante para as crianças e adultos que apresentaram níveis elevados dos metais analisados.

Embora a pesquisa indique uma exposição aos metais, o estudo enfatiza que isso não configura intoxicação. De acordo com os pesquisadores, a intoxicação só pode ser diagnosticada após avaliação clínica e exames específicos. A recomendação é que as pessoas com níveis elevados de metais pesados busquem atendimento médico para um diagnóstico adequado. Além disso, os pesquisadores alertam para a necessidade de uma rede de atenção à saúde mais eficiente, que permita a realização de exames para dosagem desses metais em toda a população afetada, e não apenas nos participantes da pesquisa.

O levantamento, que faz parte do “Programa de Ações Integradas em Saúde de Brumadinho”, visa monitorar os efeitos do desastre ao longo do tempo e tem sido realizado desde 2021, com acompanhamento anual dos participantes. O programa se destina a entender as mudanças na saúde dos moradores, tanto no curto quanto no longo prazo. Segundo os pesquisadores, a presença de metais pesados é um alerta para o impacto contínuo das atividades de mineração e do desastre de 2019.

O estudo também revelou que, além da exposição a metais pesados, a população de Brumadinho está enfrentando um aumento significativo de doenças crônicas. Entre os adolescentes, doenças respiratórias, como asma e bronquite asmática, se destacam. O índice de jovens diagnosticados com essas condições aumentou de 12,7% em 2021 para 14% em 2023. Além disso, houve elevação no número de casos de colesterol alto e doenças pulmonares, como bronquite crônica e enfisema. Entre os adultos, as doenças mais citadas foram hipertensão, colesterol alto e problemas na coluna, que apresentaram um crescimento significativo nos últimos dois anos. A hipertensão, por exemplo, saltou de 27,9% em 2021 para 30% em 2023.

O aumento nas doenças crônicas resultou em uma maior procura por serviços de saúde na cidade. A pesquisa revelou que 44,1% dos adolescentes procuraram atendimento médico mais de três vezes em 2023, enquanto em 2021 esse índice era de 21,7%. Nos adultos, a procura por atendimento aumentou de 38,6% para 53,7% no mesmo período. Esse aumento reflete não apenas a crescente demanda por cuidados médicos, mas também a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de atender a essas necessidades, tornando-se um ponto crucial para ações que busquem minimizar os impactos do desastre.

A Vale, por sua vez, se manifestou informando que as análises feitas pela mineradora não encontraram concentrações de metais pesados acima dos limites permitidos pela legislação. A empresa também afirmou que irá avaliar o estudo divulgado pela Fiocruz. A mineradora destacou que já realizou uma ampla investigação sobre os sedimentos e solos na Bacia do Paraopeba para entender melhor os possíveis efeitos do desastre.

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